
Retrospectiva 2025
29 de dezembro de 2025
As alegrias de morar em frente à Padaria Real, em Sorocaba
31 de janeiro de 2026Fiz carreira universitária na USP, começando como auxiliar de ensino e terminando como professor titular (mais alto nível) e, ainda depois de aposentado, recebi o título de professor emérito da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos-USP (honraria aos que se destacam na carreira universitária).
Além de dar aulas de graduação e de pós-graduação, fiz muitas palestras, tanto no Brasil quanto em alguns países, sendo a principal feita em um congresso nos Estados Unidos, sobre leite enriquecido com selênio, para uma plateia de mais de 3000 pessoas de todo o mundo! Neste congresso, inclusive, uma aluna de graduação nossa recebeu o prêmio de melhor trabalho de iniciação científica, utilizando dados de uma pesquisa que orientamos.
Por falar em pesquisa, possuo mais de cem trabalhos de pesquisa publicados em revistas científicas do país e do exterior, mas uma das pesquisas mais importantes foi sobre o mineral selênio, que teve um acontecimento interessante. No início da década de 80, um ex-professor titular da USP (Carlos S. Lucci) coordenou a primeira pesquisa no Brasil sobre o selênio, um mineral praticamente desconhecido no país naquela época. A pesquisa contou como colaborador um professor americano, que estava se aposentando (Alvin L. Moxon). O trabalho foi de grande vulto; teve uma equipe de 12 pesquisadores, da qual eu participei ativamente. Ele consistiu em fazer um levantamento de selênio em todas as regiões do estado de São Paulo, coletando amostras de sangue de vacas leiteiras, das suas pastagens e rações, em 80 municípios, duas vezes no ano: verão e inverno.
Certa vez eu estava preparando o material para colher amostras em uma fazenda de Campinas, quando o americano apareceu e pediu para ir junto. Chegando na fazenda, enquanto eu preparava o material para coleta de sangue dos animais, o americano viu um bezerro prostrado e perguntou do que se tratava. Transferi a pergunta para o veterinário da fazenda, que foi o melhor aluno da minha turma.
Ele disse que era um problema genético, aí eu dei uma enorme gargalhada e disse: você não sabe o que é e põe a culpa na genética! Ele, muito bravo, disse que casos como esses haviam sido discutidos na Associação de Veterinários de Campinas, onde concluíram ser de falha genética. O americano disse que não, que era doença causada por deficiência de selênio! Aí eu dei uma segunda gargalhada e disse: Como? O Sr. vem na primeira fazenda no Brasil, vê o primeiro animal e já faz o diagnóstico de deficiência de selênio?
Dias depois o americano bateu à porta da minha sala com o resultado do exame de sangue do animal, foi a vez de ele não gargalhar, mas de apresentar um pequeno sorriso de satisfação. Um nível inferior a 20 microgramas de selênio por litro de sangue é uma deficiência severa e o bezerro possuía apenas 5! Ao final do trabalho, o coordenador da pesquisa fez uma apresentação no Sindicato Nacional das Indústrias de Rações, mostrando haver deficiência de selênio nos animais e nos seus alimentos no estado de São Paulo. Depois disso, passou-se a fazer a suplementação de selênio aos animais e a recomendar a suplementação aos humanos no Brasil!

