
Um ano do Memórias que Contam
23 de abril de 2026Conheci a Dra.Norma Jorge Kyriakos em meados de 1987. Ela era a presidente da Comissão da Mulher Advogada, da Seção da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), de São Paulo, que ficava na Praça da Sé, ao lado da Catedral.
Eu estava no início da carreira da advocacia, dividia uma sala com um colega, Avalcir Galesco, na Rua José Bonifácio, no centro de São Paulo. Eu e ele tínhamos uma parceria em processos de seguradoras e quase todos os dias eu ia ao Fórum João Mendes Júnior para verificar o andamento dos processos.
Havia um processo que estava com o juiz para despacho há muito tempo e eu decidi ir falar com o magistrado, mas, para minha surpresa, ele se recusou a me receber, sequer me deixou entrar na sala. Eu fiquei indignada, esbravejei, saí batendo o pé, afinal, ele tinha o dever de me atender.
Naquele momento me lembrei da OAB e decidi ir até lá para pedir uma orientação sobre como representar contra o juiz, na Corregedoria.
Na recepção da OAB, questionada sobre o assunto, informei que o caso era de um juiz que tinha se recusado a atender e que eu queria falar com alguém que pudesse me ajudar. A pessoa que me atendeu imediatamente me encaminhou para a Comissão da Mulher Advogada que ficava no quarto andar.
Fiquei meio confusa, sabia muito pouco sobre a estrutura da OAB, até então me preocupava apenas em pagar a anuidade para poder advogar, mas eu estava muito brava e precisava falar com alguém, aceitei a indicação e tomei o elevador.
No andar indicado encontrei alguém que pediu para que eu entrasse na sala de reunião que a presidente da Comissão iria me atender.
Entrei na sala e lá estava a Dra.Norma Kyriakos sentada na ponta da mesa. Muito educada e sorridente, me convidou para sentar e contar o que tinha me levado até lá.
Nasceu naquele momento a minha profunda admiração pela Dra. Norma e uma amizade sincera que permaneceu até que ela nos deixasse, em 2017.
Contei o que tinha acontecido e que eu queria representar contra o juiz. Ela me disse que aquele juiz era muito conhecido por tratar mal as advogadas e que já havia várias representações contra ele na Corregedoria, sem solução.
Ela me contou a história da Comissão da Mulher Advogada e ali eu comecei a entender o que era o machismo nas carreiras jurídicas, a dificuldade das mulheres avançarem nas carreiras e o tratamento preconceituoso dado às advogadas.
A Dra. Norma me mostrou que o melhor caminho era que nós advogadas nos uníssemos para combater não somente o machismo, mas todas as formas de preconceito. Vivíamos uma realidade muito pior do que esta que temos hoje. A resistência dos homens em ceder espaço para as mulheres era muito maior do que na atualidade. E assim dei meus primeiros passos no feminismo e na política da OAB/SP.
Participei ativamente do primeiro Congresso Estadual das Mulheres Advogadas em 1987, da Criação da Comissão Permanente da Mulher Advogada da OAB São Paulo em 08 de março de 1988 e dos Congressos Estaduais até 2004. Fui indicada como membro efetivo da Comissão Estadual, na gestão de 1998 a 2000. Uma grande experiência!
Vivi com a Dra. Norma e as integrantes da Comissão muitos avanços e retrocessos também, sorrimos e choramos bastante. Teria muitas histórias para contar, o que farei mais para frente.
Acompanhei a Dra. Norma em inúmeros eventos dentro e fora da OAB. Ela fazia questão de dar visibilidade e espaço a todas as integrantes da Comissão. Tive muitas oportunidades de crescimento pessoal e profissional.
Me lembro das vezes que ficava conversando com ela nas estações do metrô, não me importava que os trens chegassem e fossem embora, o que eu gostava mesmo era de ficar ali ouvindo e aprendendo com a Dra. Norma.
Sempre penso que se aquele juiz não tivesse me tratado tão mal, eu nunca teria conhecido a Dra. Norma, a quem sou eternamente grata pelo exemplo de força, de coragem e de persistência na busca da igualdade de direitos para todas e todos.

