
Mais uma memória do adolescente
12 de fevereiro de 2026
Hoje vendo uma chamada de vídeo no Instagram da Faculdade de Direito onde cursei. Veio à minha memória o dia da minha formatura no salão do Parque Anhembi, em São Paulo. Fiz o curso na FIG – Faculdades Integradas de Guarulhos, na Vila Galvão, de 1973 a 1977.
Antes de fazer o vestibular, fiz o Colégio no Instituto Nossa Senhora Auxiliadora, no Belém, pela manhã e à tarde cursei o cursinho do Objetivo, na Avenida Paulista. Foram anos de estudos intensos, dedicação integral, sem passeios, praias, lazeres, focando apenas nos estudos.
O sacrifício valeu a pena porque resultou em êxito na aprovação na USP para o Curso de Letras e mais tarde na Faculdade de Direito, em 12º lugar.
A tenacidade para alcançar esses resultados era para honrar todo o sacrifício dos meus pais, tios, que nunca tiveram oportunidade de estudar, de conseguir um diploma do ginásio. Viveram dias difíceis, com árduo trabalho em feira livre.
Eu desde os seis anos acompanhava meus pais e tios na feira livre. Eram dias intensos, principalmente quando chovia. O dia começava às quatro da manhã, quando a família acordava e partia em um caminhão Ford, abarrotado de sacas de feijão, arroz, latarias, produtos de limpeza, etc., porque na época — década de sessenta — ainda não existiam os supermercados e os produtos eram vendidos em feiras livres.
Cada dia era em um bairro, só havia descanso às segundas-feiras.
Cresci vendo toda essa situação da família e pensava que não pretendia seguir aquele caminho.
Comecei estudando em uma escola pequena, perto de casa, onde fiz o primário, depois fiz o ginásio no Colégio Espírito Santo e depois o colegial no Instituto Nossa Senhora Auxiliadora.
Ao cursar o cursinho no Objetivo, vendo a imensidão de estudantes se preparando para o vestibular, pensava que não podia ficar para trás, teria que ter sucesso porque senão o meu caminho seria o mesmo que o da minha família, o que me deixava apavorada.
Fiz as duas faculdades, de Letras na USP, pela manhã e de Direito à noite.
Na época do estágio prestei concurso na Procuradoria do Estado e passei para estagiar na Secretaria da Fazenda. O assunto tratado na Procuradoria Fiscal era apenas de ICM e ao cabo de 6 meses já estava entediada do assunto e da dinâmica de trabalho, queria aprender mais, e então comecei a procurar uma forma de mudar de área.
Fiz contatos com colegas da Procuradoria de Assistência Judiciária, onde os trabalhos eram mais dinâmicos e os assuntos variados. Contudo, me deparei com um sério obstáculo: a chefe não permitiria a minha mudança se eu não providenciasse uma substituta para o meu lugar.
Falei com algumas chefias da Procuradoria de Assistência Judiciária e uma me conseguiu uma intervenção da Procuradora Geral, que providenciou a minha mudança e publicou a nomeação no Diário Oficial do Estado. Enfrentei problemas com minha chefe, mas ela não podia fazer nada porque a alteração foi feita pela Procuradora-Geral.
Mudei para a Procuradoria de Assistência Judiciária, na Av.da Liberdade 30.
As pessoas para conseguirem o atendimento ali ficavam em filas desde as cinco horas da manhã para serem atendidas às 13 horas. Eram pessoas pobres, simples, muitas ignorantes, que vinham com todo tipo de assunto.
Finalmente eu entendia a dimensão do meu trabalho e a importância de atender aquelas pessoas, de aconselhar, de dar uma orientação, de acompanhar cada caso, de ir ao Fórum para acompanhar os processos, de fazer audiências, de peticionar.
Como agradecimento dessas pessoas ganhava doces, balas, bolachas, ficavam tão agradecidas. Saí de lá com muitas histórias, muitas experiências, aprendi muito.
Depois do estágio comecei a trabalhar em empresas, em departamento jurídico de empresa de seguros e acabei me aposentando nesse segmento.
Aquele diploma em Direito foi muito importante na minha vida, possibilitou que tivesse uma vida com dignidade, de criar meus filhos, de não passar pelas dificuldades da minha família.
Sou agradecida aos meus pais e tios por me proporcionarem o estudo, tornando-me advogada.

