
As alegrias de morar em frente à Padaria Real, em Sorocaba
31 de janeiro de 2026
Essa passagem na minha juventude aconteceu no ano de 1971, em Sorocaba/SP, após completar 15 anos. Foi minha primeira saída à noite totalmente livre e solta.
Meu primeiro baile. Era para ser um acontecimento e tanto. O baile aconteceu no Clube União Recreativo, que bombava na época. As atrações eram Roberto Carlos, por quem já não tinha muita admiração (na minha memória “Os Beatles, Paul e eu”, já publicada nesse blog, tem o motivo) e o cantor italiano Sergio Endrigo, mas para mim o que estava valendo era sair à noite e ficar até a madrugada, coisas da juventude, seja na época que for.
A princípio, a logística para eu ir ao baile seria com uma ex-vizinha, maior de idade, e, na volta, dormiria na casa dela e, no dia seguinte, pegaria o ônibus circular e voltaria para casa.
Porém um dia antes do baile aconteceu um imprevisto e ela não poderia ir, mas ela conversou com uma amiga, quase vizinha dela, que também ia ao baile, pessoa que eu conhecia “por alto” do Estadão, a qual se prontificou em me acolher na sua casa juntamente com outras jovens amigas, até a manhã do dia seguinte quando pegaria o ônibus pra casa.
Tudo acertado. Minha mãe me levou de carro até a casa da pessoa; deve ter dado algum dinheiro para tomar um refrigerante apenas e se foi.
Quando bati na porta, vieram me atender, me convidaram pra entrar e eu de cara senti um clima meio estranho comigo. Eu já cheguei pronta, portanto, não precisei de espaço, espelho, lugar pra deixar roupa, nada. Acho que éramos umas 8 moças que fomos em 2 carros de parentes da dona da casa.
Porém, um pouco antes de sairmos, a anfitriã veio até mim e perguntou se eu não teria como dormir na casa de outra pessoa, pois a casa dela não tinha acomodações suficientes para todas.
Como dizer isso naquela altura da noite, sendo que ela concordou em me acolher? Que deselegância!
Meu Deus, queria que o chão abrisse e eu fosse levada diretamente para minha casa, a qual ficava bem longe dali. Minha mãe tinha carro mas não tinha telefone, portanto não tinha como pedir para vir me buscar. Também o dinheiro que ela me deixou não daria para pegar um táxi e, mesmo que desse, teria medo de ir sozinha com o motorista tarde da noite.
Meu Deus! Fiquei sem saber o que dizer, o que fazer; tive vontade de sair correndo daquela casa. Minha saída da situação é que não tinha saída e disse que não tinha pra onde ir.
Que situação! Que vergonha!
Ela vendo que não tinha como “se livrar” de mim, disse “então daremos um jeito” e eu pra completar “me acomodo numa poltrona até a hora de ir embora”.
Enfim, fomos para o baile, não fiquei junto com a turma dela mas não as tirava do meu alcance visual com medo de irem embora e me largarem pra trás.
Enfim, meu primeiro baile não teve o glamour que eu esperava. Fim do baile retornamos para casa dela, me acomodei numa poltrona na sala e não dormi quase nada.
Bem cedinho chegou a funcionária da casa e me viu dormindo ali, estranhou, eu não disse nada e ela também não me disse o que achou da situação. Como já estava de dia, disse que já ia embora.
Ela tentou me segurar até fazer um cafezinho. Agradeci, mas me mandei. Não queria ficar um minuto mais naquela casa. Pedi que pra dizer pra a “amiga” que agradecia muito. E fui embora.
Fiquei um tempão esperando o ônibus, mas melhor acomodada no ponto de ônibus do que na casa da pessoa.
E assim foi meu primeiro baile, meu primeiro passeio sozinha à noite sem a presença da minha mãe. Mas não fiquei remoendo a situação, pra não dizer humilhação, não. Fui a muitos bailes, passeios, viagens, sozinha ou com amigos. Vivi a minha juventude.

