
Encanto de Natal
17 de dezembro de 2025
Tenho pensado sobre isso
20 de dezembro de 2025Era uma tarde de verão, muito quente na vila. Lá estávamos os 3 juntos: eu (Nenê), Ramon e Elton, procurando o que fazer. Aí pintou a ideia da pescaria.
– Mas onde vamos arrumar as varas? Pergunto eu…
– Ah… eu tenho na minha casa, mas são do meu pai e se ele souber que eu peguei, vou levar uma baita surra. Respondeu o Ramon.
– Mas não tem como ele saber, retruquei… vamos sair agora e até por volta das 05 horas da tarde, já estaremos de volta…
Esta foi a minha resposta no que o Elton concordou, prontamente (ai dele se não concordasse, rsrsrsrs). Depois de várias discussões, o Ramon resolveu buscar as varas.
Já saímos correndo para a beira do córrego, à procura das minhocas, pois ali era o que mais tinha, em abundância… era só dar “umas cavadinhas na terra” que já brotava aquele monte de minhocas. Em poucos minutos já tínhamos enchido uma latinha de Nescau com um monte de minhocas, daquelas “bem graúdas”. Foi só jogar um pouco de terra preta, úmida, para manter as “asquerosas minhocas” vivas e partimos rumo ao rio Sorocaba, ali pertinho, embaixo da ponte da Fepasa, onde hoje fica a praça Lions, na marginal Dom Aguirre.
Pegamos o caminho da estação da Sorocabana, seguimos até a Rua Paula Souza, onde ainda hoje existe uma estaçãozinha de trem da Votorantim. Ali era só seguir um caminho no meio da pequena mata ali existente, passávamos por uma trilha onde havia várias árvores frutíferas, amoras silvestres, mangas, goiabas, mais um monte de pés de mamonas, onde às vezes também tirávamos “guerrinhas” de mamonas, com os estilingues, outra brincadeira muito divertida, porém um pouco “dolorida”, principalmente prá quem levava “umas estilingadas” de mamonas no rosto, na cabeça, às vezes na barriga, ui, ui, ui, como ardia aquela desgraça, atirada com os estilingues feito de “tripa de mico”…(pra quem não conhece, “tripa de mico” nada mais era, do que essas “tiras de borrachas” utilizadas nos laboratórios para “apertar” os braços fazendo saltar as veias na hora da coleta de sangue). Aí já aproveitávamos e íamos provando as frutas silvestres dali.
Logo, logo, chegamos à beira do rio Sorocaba. Caminhamos mais um pouco, às margens do rio, até chegarmos bem embaixo da ponte da linha férrea da Fepasa, que ainda hoje corta a marginal. Dava um baita medo, quando passava o trem, lá em cima. A impressão que tínhamos era que o trem poderia cair.
Aprontamos as varas, que o Ramon havia levado, uma pra cada um, espetamos as minhocas e “tchibum…” jogamos as linhas com a chumbada e a minhoca “enroscada” no anzol, para dentro do rio.
Ficamos ali na margem, “molhando as minhocas” e… nada de pegar os peixes. Só “beliscava” e acabávamos perdendo as iscas. Toca novamente, coloca outro pedacinho de minhoca e joga novamente para a água. Mas estávamos todos contentes, passando o tempo ali naquele pequeno paraíso, nos divertindo à beça.
Dali, naquele ponto onde estávamos somente os três, podíamos ver que do outro lado, havia uma outra pessoa, também pescando.
Havia naquele trecho do rio, pequenas “toras” de dormentes, essas madeiras que se usam nas linhas férreas, para fixar os trilhos, e estes dormentes, estavam “fincados” no rio, onde percebemos que dava prá ficar em pé, em cima das toras, cabia exatamente uma pessoa. Aí, já viu, né… cabeça de moleque, só inventa moda!
Lá fomos nós, prá cima das toras, um em cada uma delas, se equilibrando prá não cair, pois ali, tínhamos a impressão que poderia haver mais peixes, pois era uma parte um pouco mais profunda, do que na beira do rio. E vamos lá de novo: corta um pedacinho da minhoca, e “tchibum…” manda prá água!
As “toras” onde estávamos, realmente, não eram nada confortáveis, pois não era tão fácil ficar ali, equilibrando-se para não cair e, ainda por cima, segurando a vara na expectativa de “beliscar” algum lambari, cará, cascudo ou qualquer outro peixe.
Passados alguns minutos, num dado momento, o Ramon, que estava na tora do meu lado esquerdo, quis passar para uma outra tora, que estava vazia, do meu lado direito. Ia ser uma baita peripécia, pois não dava prá ficar os dois, sobre uma tora. Eu ainda avisei o Ramon: – não dá prá você passar pro outro lado… você vai cair. Mas que nada!!! O bicho era teimoso feito uma mula e lá foi ele tentar a passagem. Eu, ali, procurando me equilibrar e dar um espaço para o Ramon se apoiar e passar para o outro lado.
De repente, “tchibum…” e lá se foi o Ramon prá dentro do rio.
Primeiramente, foi aquele susto com a queda inesperada do Ramon, depois, foi só gargalhadas… eu e o Elton, vendo aquela cena, a princípio, muito cômica, quase que também caímos, porém de tanto dar risadas, pois realmente, a cena era muito engraçada.
Cabe aqui uma pequena observação. O Ramon calçava “uns sapatos” de borracha, conhecido na época, como “vulcabrás”, pois eram bem mais baratos do que os tênis bamba, que nós utilizávamos na época, e como sua família “não tinha lá boas condições financeiras”, o Ramon só usava este tipo de calçado, que eram “fedidos” prá burro, pois nos pés, esquentava muito fazendo “suar” e exalando um “mau cheiro” danado.
Pois bem… como o sapato havia sido molhado, isso fez com que o mesmo ficasse liso, causando o escorregão que o derrubou prá dentro do rio.
O Ramon “sumiu” no rio e de repente, eis que o mesmo vem à tona, se agarra à tora, cuspindo água pela boca “glub… glub… glub…” que havia engolido e começa a “reclamar” que um dos sapatos havia saído do seu pé e ficado preso no fundo do rio… que ali era muito fundo, e que agora iria apanhar do pai, por ter perdido o pé do sapato, e novamente, “glub… glub… glub…” afundou de novo, e eu e o Elton ali, achando aquilo tudo muito engraçado, continuávamos a rir sem parar e não dávamos conta que o coitado do Ramon estava se afogando.
Novamente, passado alguns segundos, lá vem o Ramon à tona, “cuspindo” água prá todo lado e desta vez reclamando que deixara escapar a vara da sua mão, como é que ele iria fazer, prá dar conta disto tudo à seu pai… e nós, que não conseguíamos parar de rir, daquela desgraça do coitado!!! E “glub… glub… glub… de novo sumia o Ramon, prá baixo da água!
Em resumo… o Ramon só conseguiu sair da água, graças à ajuda do rapaz que estava pescando, lá do outro lado do rio, que quando viu o que estava acontecendo, veio “correndo” por cima da ponte, e conseguiu chegar à tempo de tirar o coitado do Ramon, da água.
Passado o susto, não havia mais clima para continuar nossa pescaria. Assim sendo, saímos dali, frustrados, pois não havíamos pescado nenhum peixinho. Mas valeu a pena, pois nos divertimos muito.
De volta pra casa, o difícil foi agüentar o Ramon, andando com um pé só de sapato, meio manquitolando e reclamando o caminho todo, a perda da vara que havia caído no rio, e ainda por cima, perdera também o sapato… e lamentando a falta de sorte, como é que iria enfrentar o seu pai, enfim… e eu e o Elton, caminhando ali à seu lado, ainda não havíamos parado de rir.
Era só olhar a cara do Ramon, chorando e se lamentando, e resmungando… que começávamos a rir novamente. Que desgraça!!! Que amigos da onça!!!
Por fim, chegamos à vila, à tardinha. Cada um para sua casa e o deixamos lá, o pobre do Ramon, com os seus problemas!! Coitado.
Aquele assunto ainda nos rendeu vários dias de gozação, com o pobre do Ramon. Foi só espalhar prá vila toda, que todos os moleques, já sabendo do episódio, começavam a gozar com o coitado.
Quanto ao seu pai… as explicações que o Ramon teve que lhe dar, nunca soubemos o que aconteceu nem tampouco perguntamos-lhe sobre as desculpas que teve que inventar, para explicar o pé de sapato perdido
Essa é a segunda história da VILA STO ANTÔNIO – Veja aqui

