
Dra. Norma Kyriakos e a Comissão da Mulher da OAB/SP na minha vida
5 de maio de 2026
Harry e nós
12 de maio de 2026Conversando com o meu amigo Robson sobre a crise de bronquite pela qual ele está passando, me lembrei do meu avô materno, Seu Zé, nascido em Piracicaba, mas tendo vivido a maior parte da vida em Sorocaba.
Era filho de imigrantes italianos e, pelo que sei, meio “playboy” quando era moço. Era vendedor de frutas, pescador nos rios da região e, aos sábados e domingos, vendia algodão-doce na praça da Matriz.
A minha mãe Annita contava que quando eu fiz seis meses (dezembro de 1956), tive o primeiro “ataque”, perdia os sentidos e ficava roxa. Isso acontecia duas a três vezes ao dia. O diagnóstico médico era incerto e a minha mãe e a minha avó cuidavam de mim dia e noite, porque achavam que eu poderia morrer durante um dos desmaios.
É aí que começa a história. A minha avó Maria, depois de um “ataque” feio, chamou o meu avô e falou que tinha chegado a hora dele colocar em prática o que tinha aprendido com o velho pescador.
O que ela e a minha mãe contavam é que o meu avô era bem jovem quando um dia estava pescando e um senhor que era conhecido dele lhe entregou um carretel de barbante branco e uma tesoura e ensinou como ele deveria continuar a tarefa do benzimento de crianças que sofriam “ataque”.
Ele contou isso para a minha avó que guardou a linha e a tesoura por muitos anos. A minha avó contava que ele se recusava a falar no assunto, que dizia não se lembrar mais, que não tinha fé suficiente para curar ninguém. Mas a minha avó, que era muito convincente, já foi dizendo que se eu morresse, a culpa era dele.
Sorte a minha, ele acabou concordando e eu fui a primeira beneficiada. Já vou adiantando que nunca mais tive “ataque”, nem qualquer diagnóstico que justificasse aqueles desmaios.
O benzimento era o seguinte e isso eu presenciei muitas vezes: numa sexta-feira de lua minguante o meu avô encostava a criança no batente da porta da cozinha de casa, marcava com um risco na madeira a altura da criança, tirava a medida com o barbante e cortava do tamanho da criança. Daí ele saía no quintal e ficava ali alguns minutos, sozinho, olhando para a lua e fazendo orações. Em seguida, ele ia até o rio para jogar o barbante na água corrente.
Quando a criança crescesse e passasse daquela marca na porta, os “ataques” desapareciam, e isso acontecia mesmo. Durante muitos anos todas as sextas de minguante tinha criança na minha casa para o benzimento. E a porta era cheia de riscos.
Antes de falecer, ele entregou o barbante e a tesoura para o meu tio que depois de muito tempo, incentivado pela minha mãe, decidiu benzer um amigo, já adulto, que sofria de bronquite e deu certo.
Nessa época o meu tio já era casado e também benzeu até morrer. Ele teve uma morte súbita e não teve tempo de deixar a tarefa para alguém. A tesoura e o carretel ficaram com a minha tia, que entregou para a minha mãe que eu encontrei quando ela faleceu. Decidi jogar no rio.
Gratidão eterna a minha avó que insistiu com o meu avô e a ele pela coragem, pela fé e pelo desejo de me curar.

